DESAFIOS DA LEITURA E DA ESCRITA:

                      DESAFIOS DA LEITURA E DA ESCRITA:

QUANDO OS ALUNOS JÁ NÃO ACREDITAM EM SUAS   CAPACIDADES DE APRENDIZAGEM

 

 

 

Raimunda Rafael Gomes – Professora

Hudson Alves de Lima – Tutor

 

APRESENTAÇÃO

 

     O presente trabalho tem como objetivo relatar as experiências de professores, tendo como foco a aquisição e desenvolvimento da leitura e da escrita, subsidiadas pelos princípios do Programa de Formação Continuada de Professores dos Anos/Séries Iniciais – Pró Letramento.

    O relato ora apresentado é resultado da observação de uma seqüência didática realizada pela Professora Raimunda Rafael – representando, nesse caso, os professores participantes do Programa e demais professores que no interior das escolas de Arez/RN em suas práticas diárias vivenciam situações parecidas, senão iguais.

     Como mais um recurso auxiliar na formação de professores, o Pró Letramento apresenta-se de forma muito positiva; pois, vem proporcionando um redirecionamento, ou melhor, dando oportunidade para que professores possam repensar conceitos, reorganizar sua prática, através das discussões, leituras e reflexões suscitadas nos encontros – transformados em espaços  de interação, desabafos, motivação e aprendizagem.

     Daí a importância da realização desse trabalho, onde pôde-se conversar, trocar informações, conhecer mais detalhadamente as realidades de várias escolas/salas de aula, expor angústias e/ou compartilhar alegrias.

 

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

    

     Muito, há tempos, se fala dos problemas enfrentados pelas escolas brasileiras, dos resultados negativos quanto à aprendizagem; PARO (1995, p. 19) aponta: “a situação precária em que se encontra o ensino público, em especial o de 1º grau, no Brasil, é fato incontestável (...). A situação também não é nova, persistindo por décadas (...).” Por um longo período a educação sofreu duras críticas, em virtude do abandono pelo poder público. Como ainda ressalta PARO (1995, p. 19):

            

                   “esse fato leva a se colocarem sérias dúvidas a respeito do real interesse

                   do Estado em dotar a população, em especial as amplas camadas  traba

                   lhadoras, de um mínimo de escolaridade(...).Parece, assim, que o caso d

                   educação escolar constitui apenas mais um dos exemplos de descaso do

                   poder público para com os serviços essenciais”.

 

   

 

      Contudo, sabe-se que nos últimos anos a educação brasileira vem sofrendo transformações, passando por um processo de renovação, no intuito de  estabelecer-se como uma educação de melhor qualidade. Prova disso são os esforços de várias instituições, como ONGs, teóricos/estudiosos, universidades e, especificamente o Governo Federal, concentrados em prol desse objetivo. CANDAU (2002, p. 09) reforça:

 

                   “os últimos anos têm sido marcados em nosso país por uma vigorosa  re-

                    flexão crítica sobre a problemática educacional e pela busca de caminho

                    para a promoção de uma ação educativa realmente comprometida com

                    a construção de uma sociedade mais justa e democrática”.

 

    

     Nesse sentido, somando forças, a fim de atingir todos os cidadãos, os recursos ( tanto material,quanto teórico) oferecidos , sejam através de cursos/formação presenciais, à distância, pontuais ou continuadas, vêm contribuindo para a redução/reversão do quadro antes apresentado.

     São bem visíveis, por exemplo, as ações destinadas a combater as insuficiências da leitura e da escrita. Considerando PARO (1998, p. 18), quando afirma que “as pessoas envolvidas com a educação no País têm manifestado certa sede de conhecimentos a respeito do que realmente acontece no dia a dia de nossas instituições escolares”, pode-se dizer que o Pró Letramento é um auxiliar bem próximo, pois, concebido para oferecer suporte à melhoria da qualidade de aprendizagem da leitura/escrita e matemática nos anos iniciais utiliza linguagem acessível, ou seja, expõe conceitos de forma clara. À vista disso, sabe-se que

 

                   “os instrumentos de trabalho de um alfabetizador são abstratos e  inclu- 

                      em alguns conhecimentos básicos sobre sons da fala, letras do alfabeto

                      alfabeto e língua,(...) o alfabetizador precisa ter outros dons para se sair

                      bem (...) confiar na  capacidade de  desenvolvimento  dos  alunos e  ter

                      criatividade,  iniciativa,(...).” LEMLE (1994,P.06)

 

   

, Nesse sentido o Pró Letramento pauta suas orientações, apontando 

 para os conceitos (construção/reelaboração) de alfabetização e letramento numa perspectiva mais abrangente.

 

CARACTERIZAÇÃO DA ESCOLA/TURMA

 

                Para fins de observação foi escolhida ( pelos professores participantes do Programa) a Escola Municipal João Guio Ensino Fundamental.Situada na zona urbana, centro; escola de maior porte, concentrando a maioria do alunado municipal – total de 1216 alunos, destes 461 do  fundamental I e 755 do fundamental II; oriundos do próprio município, sede e zona rural.Funcionando nos turnos matutino e noturno atendendo ao fundamental II e, no vespertino o I.

                A turma foi um 3º ano Turma D, composto por 28 alunos, destes apenas 08 meninas; faixa etária entre 10 e 14 anos, todos repetentes (em média de 02 anos); 05 da zona rural; 02 apresentam dificuldades de fonação; todos provenientes de famílias de baixo poder econômico. Levantamento feito no início do ano, com os pais, revelou que destes, apenas 05 são semi alfabetizados, os demais não lêem/escrevem.

                Inicialmente (diagnóstico), 26 alunos copiavam – não respeitando margens e espaçamentos; 02 usavam garatujas; 10 não escreviam o prenome e os demais escreviam o nome completo de forma “atrapalhada”; 02 liam sílabas simples (isoladas) e escreviam silabicamente; os demais reconheciam algumas letras. Atualmente 02 lêem com certa fluência; os demais lêem palavras/frases usando estratégias como a inferência e antecipação; 15 escrevem em nível silábico-alfabético; todos adquiriram  noções espaciais e copiam de forma convencional, já escrevem o nome próprio, desenvolveram a oralidade – participação nas discussões.

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA

 

                 As informações a respeito da experiência apresentada foram obtidas a partir de observação feita em sala de aula, em horário normal; ou seja, não foi feito nenhum planejamento especial, com objetivo de se trabalhar para a observação. Mesmo porque, esta, de certa forma aconteceu de surpresa; a Professora foi orientada para trabalhar normalmente, seu plano, suas estratégias habituais. Pois, a partir dos seus relatos orais, quando das discussões em sala, esses procedimentos já eram visíveis. O que seria observado, seria apenas como acontecia a articulação dos conteúdos do curso.

                Durante a observação a Professora trabalhava uma seqüência didática, dada início na segunda-feira – a partir do levantamento de temas já trabalhados nas semanas anteriores. A observação aconteceu na quarta e quinta-feira.

                Com o objetivo de desenvolver a expressão e argumentação (oralidade), num primeiro momento, e refletir sobre a linguagem/produção textual, posteriormente; a Professora trabalhou uma listagem de animais, em pequenos grupos, aos quais entregou cartões com figuras de animais e orientou a escrita do nome dos mesmos. Cada aluno deveria escrever em seu caderno, após discussão a respeito de cada animal – habitat, classe, alimentação, etc. Após a escrita individual, motivada pela ajuda mútua, aconteceu a intervenção nos grupos; a partir da leitura da lista, a Professora questionava a escrita, fazendo cada aluno do grupo refletir a respeito da palavra que escreveu (se estava correta, se tinha letras demais/menos, se estava faltando, qual; que letra deveria ser posta para produzir tal som). Este exercício, grupo a grupo (havia 06), durou todo o primeiro momento da aula e boa parte do segundo (pós intervalo). Posterior à atividade descrita, aconteceu o preenchimento da ”ficha do animal” – ressaltando que o tema animais estava valendo como revisão do conteúdo trabalhado em Ciências; cada grupo deveria escolher um dos animais listados, preencher  a ficha, para em seguida socializar para os demais.

                A partir desta orientação aconteceram, nos grupos, novas discussões e novas intervenções, a fim de tornar convencional essa escrita.

                A segunda atividade observada, em continuação à seqüência, foi a construção de um texto coletivo; tendo como ponto de partida elementos da lista/ficha produzidas anteriormente. Feito os procedimentos iniciais( acolhida,

roda de conversa, leitura compartilhada) a Professora motivou os alunos iniciando a  memória da aula passada. Surgiu, nesse momento, comentários a respeito das diversas tipologias textuais, suscitado pela Professora ao inquirir acerca da lista/ficha; ela ia dando pistas a respeito de carta, receita, poema, etc; para explicar que construiriam um texto narrativo.

                Após essa retomada, passaram a discutir o que escreveriam para quê/quem, que título dariam, de que falariam. Decididas as questões, a Professora passou a escrever o que os alunos indicavam; orientando, intervindo, fazendo adaptações, questionando palavras e organizando a fala de cada aluno. O primeiro horário foi reservado, totalmente à escrita do texto; o segundo usado para a reescrita, ou seja, para os ajustes, onde a Professora trabalhou a grafia, gramática, pontuação, coerência textual – fazendo-os refletir se o que estavam dizendo fazia sentido – e leitura; pois, a cada sentença escrita era feita a leitura desta, também coletiva.

                A atividade de reescrita não foi concluída, ficando,  portanto, para a próxima aula, onde fariam a cópia do mesmo e assistiriam o filme Tainá 2; com o objetivo de sistematizar as idéias anteriores acerca da relação homem    versus natureza.

               

AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS/CONCLUSÃO

            

                  Considerando o diagnóstico inicial da turma, os relatos orais e a observação pode-se constatar que, de fato, o trabalho de alfabetização é muito difícil; LEMLE ( 1994, p. 05) reforça: “para levar a termo com sucesso, o professor das classes de alfabetização é, de todos, o que enfrenta logo de saída os maiores problemas lingüísticos, e todos de uma só vez”. Porém, apesar das dificuldades encontradas, sabe-se que é possível trabalhar de forma a alfabetizar/letrar; haja visto os resultados percebidos nesta experiência e, em  tantas outras das quais temos notícia.

                Entretanto, vale ressaltar que é um trabalho que exige paciência, perseverança, constância e motivação; pois, o acostumar-se dos alunos às atividades de leitura e escrita, sobretudo daqueles que têm como único contato com tais atividades a escola, é demorado. Segundo relatos da Professora, sua prática vem dando resultados positivos, à medida que  a desenvolve atenta a uma “alfabetização mais completa” – comentário este que nos remete ao letramento – já que procura dotar seus alunos de conhecimentos e práticas que os faça participantes do mundo  escrito, sabendo como, o que, quando e onde utilizar leituras e escritas variadas; se tomarmos “ letramento como o processo de inserção e participação na cultura escrita” BATISTA  et ali (2007, p.12).

                Durante a observação ficou claro, essa preocupação relatada, pois a todo momento  a Professora instigava os alunos, fazendo-os refletir acerca de seus atos ou comentários. Sempre relacionando sua fala aos conteúdos discutidos – de forma interdisciplinar; possibilitando o acesso a vários portadores/gêneros textuais (varal em sala, uso do dicionário); incentivo à fala organizada; cuidado, reelaboração da escrita – o que remete aos eixos de compreensão e valorização da cultura escrita, apropriação do sistema de escrita, leitura, produção escrita e desenvolvimento da oralidade.

                Aqui apresenta-se a prática da Professora Raimunda Rafael como exemplo, para representar tantos outros professores que já fazem das suas salas  espaços de melhores aprendizagens, entretanto sem o saberem. Emerge, desse modo, a relevância do Pró Letramento em fundamentar as ações preliminares ou reforçá-las, através do espaço de reflexão no qual este curso – para nós, professores participantes - se constituiu.

 

REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS

 

BATISTA, Antonio Augusto Gomes; ET ali. Capacidades Lingüísticas: alfabetização e Letramento, Fascículo 1, Pró Letramento, MEC/SEB, Brasília,2007.

 

BRASIL/MEC/SEB. Pró Letramento – Guia Geral 2007, Brasília, 2007.

 

CANDAU,Vera Maria. Rumo a uma nova didática, Editora Vozes, Petrópolis, 2002.

 

LEMLE, Miriam. Guia Teórico do Alfabetizador, Editora Ática, Série Princípios, São Paulo,1994.

 

PARO, Vitor Henrique. Por dentro da Escola Pública, Xamã, São Paulo, 1995.

 

 

 

                   

leitura e escrita

sexta 26 setembro 2008 13:20 , em PROJETOS E ARTIGOS PEDAGÓGICOS



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